CAMPANHA ELEITORAL AUTÁRQUICA?

Em eleições autárquicas é frequente ouvir-se que se “vota nas pessoas e não nos partidos”, afirmação que percebendo pelaimage (ainda bem) proximidade do poder local, não poderia estar mais longe da realidade. As candidaturas são projectos colectivos, com uma vontade política, uma equipa, um projecto que está delineado pelo partido que as suporta. Caso contrário, as listas seriam de cidadãos independentes – como a lei permite – que não se revêem nos partidos e nos seus projectos.

É, também, frequente, a realidade da pouca participação popular na assistência às assembleias de freguesia e assembleia municipal, caso contrário, ficaria a nu, a pouca participação de alguns eleitos locais nas instituições. Tomemos como exemplo as forças mais votadas na Assembleia Municipal: PSD e PS. O PSD não tinha uma única mulher eleita no último mandato e muitos foram os membros de um partido (PSD) e de outro (PS) que nunca tomaram a palavra em nenhuma sessão da assembleia, muitos foram os presidentes de junta que nunca tomaram a palavra e sempre votaram com a maioria PSD os orçamentos, sob pena de posteriormente não lhe serem atribuídas verbas. Relembro que a assembleia municipal tem 64 eleitos. Destes, onde me incluo como única representante da CDU, posso afirmar com factos, sem qualquer intenção de me por “em bicos de pés” que foi a força política que mais projectos e propostas apresentou, mais requerimentos e denúncias fez, mais moções viu aprovadas e cumpriu sempre com as suas obrigações não tendo faltado uma única vez à Assembleia Municipal, como fez o CDS ou BE.

Denunciámos os contentores nas escolas, que custam 450 euros por mês às autarquias; denunciámos a discriminação salarial, o desemprego, os milhões para o Grupo Amorim despedir, lutámos pela linha do Vale do Vouga, pela água pública, contra as taxas de saneamento e parquímetros, pelo financiamento das autarquias locais, pela participação do público em primeiro lugar nas assembleias, entre tantas outras questões que muitas vezes passam completamente despercebidas aos cidadãos, uma vez que a Assembleia, por exemplo, como sempre propôs a CDU, não tem um site onde constem todas as propostas e actas de reuniões, afastando as populações do órgão que tem a competência de aprovar ou rejeitar, por exemplo, os orçamentos camarários.

Em 2001 integrei pela primeira vez uma candidatura aos órgãos autárquicos, à Assembleia de Freguesia de Santa Maria da Feira, encabeçando-a pela CDU. À data, a campanha correu com seriedade – todos os partidos apresentaram propostas viáveis, exequíveis, credíveis – tudo se processou com democracia, respeito a que acresceram debates públicos abertos a toda a população.

Contrariamente ao ano de 2009 onde as populações, já depois de duas eleições, foram confrontadas com uma campanha que, a meu ver, empobreceu, e de que maneira, a democracia, o poder local, e deu uma facada de morte à credibilidade de alguns dos políticos da nossa praça.

Desde logo pela bipolarização evidente – ou se vota Alfredo, ou se vota Alcides: não é verdade! Elegem-se vereadores, não um presidente. E o cenário poderia bem ser 5 vereadores para o PSD, 5 para o PS e 1 para a CDU – e que tal esta hipótese? Não teriam que se ouvir as várias forças? Não seriam necessários compromissos e responsabilidade? Não deixaria o PSD de “governar” sozinho com o silêncio adormecido do PS?

Para culminar naquele que foi o maior desrespeito pela população feirense, o Sr. Alcides Branco, tão elevado e glorificado pelo PS encheu a campanha de inverdades, de promessas impossíveis (legalmente falando), usou de todos os meios sem olhar a fins: prometeu auto-estradas (que não são competência das Câmaras), prometeu livros escolares gratuitos para todos até ao 9º ano (quando o PS votou contra o projecto do PCP de gratuitidade dos manuais escolares até ao 12º ano, financiados pelo Orçamento do Estado e quando sabe que é o seu Governo PS que não transfere o dinheiro para que as autarquias forneçam os manuais?), ligou para casa das pessoas (!!!) perguntando a idade e prometendo melhores pensões e a descida da idade da reforma (foi o PS, com a conivência do PSD, que aumentou a idade da reforma com o factor de sustentabilidade – as pessoas vão ter que trabalhar até mais tarde para não perderem reforma e foi o PS que aprovou sozinho uma lei que em 2010 determina que nenhuma pensão é aumentada!), distribuiu ilicitamente géneros alimentícios (azeite) e gratuitamente um jornal que se diz “semanário republicano, independente e regionalista” como panfleto de campanha! Depois da derrota sofrida, estamos até hoje – depois de o ter ouvido num debate entre quatro paredes de rádio – que ia assumir a vereação – sem saber se nem esta promessa – a única possível de cumprir – será cumprida.

O PSD, além de continuar a usar o acervo fotográfico camarário como se do PSD fosse (basta passar os olhos pelo Atlas Feirense), de lançar primeiras pedras em dias de reflexão e ao que parece de recorrer aos telefonemas, ficou-se pelo que já conhecemos: a enfatização de um só candidato como o tal de Jesus que afinal não está só no Benfica mas também no PSD, com distribuição de canetas-lanterna às crianças das escolas e às mesmas promessas de sempre. Que sendo da sua competência (pelo menos isto!), há 26 anos que estão por cumprir.

A CDU limitou-se a comprometer com o seu trabalho. E mesmo apesar da sede vandalizada, da casa do cabeça-de-lista vandalizada, estes factos vêm comprovar o contributo pesado que PS e PSD dão diariamente à descrença dos cidadãos nos políticos – aqueles que prometem e que não cumprem e os que de antemão prometem aquilo que já sabem que não vão cumprir. E desta vez, o PS foi o campeão no definhar das campanhas eleitorais.

Repito, em 2001 integrei uma lista pela primeira vez. Nunca tinha assistido a uma campanha tão pobre e ofensiva. Mas também compreendi que vale a pena resistir, não ser igual aos outros das ofertas e das promessas e a cumprir sempre com o maior compromisso de todos: as populações, os seus direitos, a sua qualidade de vida.

Lúcia Gomes

Coligação Democrática Unitária

(VOLTAR)