O ranking (?) do bem-estar

João Carlos Amorim

Geógrafo

Estando nos últimos anos dedicado ao estudo das dinâmicas territoriais da Região e, pese embora, me ter sido sempre transmitido que na realização desses estudos não devemos desenvolver quadros de empatia com o território, confesso que sempre me “envaideci” por constatar que o município de onde sou natural se distinguia no contexto nacional.

Assim, foi com espanto, aliás, muito espanto, que tive acesso a um estudo que pretendia quantificar e “classificar” num ranking (?) os níveis de desenvolvimento económico e social ou de bem-estar dos municípios portugueses. E a causa do meu espanto radicou não só na posição do meu município (184.º, em 2009) mas também, e sobretudo, pela queda abrupta que Santa Maria da Feira obteve na variação de 2007 para 2009. Já não me causou espanto, mas antes perplexidade absoluta, as subidas meteóricas dos concelhos do Crato (de 207.º para 19.º), Monforte (de 213.º para 47.º) ou de (pasme-se) Cuba (181.º para 70.º) e o Marvão (de 219.º para 88.º).

Optaram os académicos da Universidade da Beira Interior, autores do relatório agora revelado, por uma metodologia assente em variáveis quantitativas, extraídas do Anuário Estatístico 2007 (com dados de 2006), ocultando, no seu texto denso e, por vezes inteligível, os factores de ponderação, ignorando as mais recentes políticas (do Governo e Câmaras Municipais) que, objectivando e promovendo a melhoria da qualidade de vida das populações, contrariam os factores quantitativos eleitos pelos autores, o que, obviamente, distorce a realidade actual.

Senão vejamos, foi ignorada a mais recente aposta do Ministério da Educação, em parceria com as Câmaras Municipais, assente na construção de modernos Centros Escolares, em detrimento da difusa distribuição de espaços escolares com menos qualidade e/ou recursos pedagógicos. Á luz deste relatório, e porque não tidos em linha de conta esta e outras realidades actuais (como acontece com a bem aceite e benéfica proliferação de Unidades de Saúde Familiar - em que Santa Maria da Feira é um bom exemplo nacional) adulteraram-se os pressupostos base, afastando-se de princípios coerentes, rigorosos e actuais, já que este relatório não contemplou, na ponderação das variáveis, novas realidades.

Já para não referir os investimentos feitos em campos como a Cultura (em que Santa Maria da Feira se destaca, indubitavelmente, a nível nacional) ou o Ambiente, que no nosso município e noutros são feitos através de empresas municipais (no caso da Cultura) ou serviços concessionados (Indaqua – Feira nas redes de abastecimento de água e saneamento). No entanto, o relatório negligencia, pelo método anacrónico seguido, ambas as situações. E adultera, claramente, a realidade, pois não é crível para ninguém que Santa Maria da Feira se posicione atrás de muitos outros municípios, reconhecidamente com níveis de desenvolvimento económico e social ou de bem-estar, muito inferiores ao nosso.

Ao longo da minha preparação académica e caminho profissional, a elencagem e quantificação dos indicadores escolhidos, sempre foi uma tarefa revestida de contornos extremamente complexos, dado o elevado teor de subjectividade dos mesmos. Acresce ainda que a complexidade dos fenómenos territoriais é difícil de ser captada e alcançada. A sua interpretação não se pode limitar a quadros conceptuais exíguos, incapazes de integrar uma visão multidimensional na caracterização dos processos e das realidades geográficas e, muito menos, da aferição do bem-estar das populações.

No entanto, na metodologia utilizada para a realização deste relatório não houve o cuidado de se proceder a uma selecção criteriosa, atenta e actual das variáveis estatísticas que o sustentam. Aliás, este facto é até, surpreendentemente confessado pelos seus autores quando referem: “naturalmente que estes estudos e os seus resultados são sempre discutíveis sendo até possível que estudos feitos pelos mesmos autores, mas com metodologias diferentes, conduzam a valores muito díspares”.

Perante tal confissão sou levado a questionar se este relatório é (ou pretende ser) um estudo científico ou um mero exercício académico.

Ao reflectir sobre este relatório, apesar de não lhe reconhecer fundamentos e valor científicos, apenas me move o sentido profissional com o objectivo de evitar leituras precipitadas e erróneas dos resultados que, frontal e vivamente, contesto e refuto.

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